Contratualmente, tinha direito a mais 20 kg de bagagem, a adicionar aos normais (e poucos!!!) 20kg de mala de porão para a minha viagem transcontinental (ainda me lembro quando tínhamos direito a 30 kg e ninguém nos questionava sobre a lima de papel ou a garrafa de líquidos que, apesar de obviamente não conter mais do que 100ml, não tem a sua medida expressamente escrita - questão para outro post, embora já tenha tocado no assunto, a propósito de outras deslocações). Bem sei que vinha para a "terra onde tudo existe e, se não existe, existe em Hong Kong ou na net", mas os 20 kg (mesmo os 40kg) pareciam-me pouco (e, confesso desde já, foram pouco... tratei de ultrapassar a problemática de várias maneiras... outro post - tantos posts por escrever!). Seja como for, e de acordo com o que me foi indicado, contratei serviço de cargo, que implicou ir uns dias antes à Portela entregar a mala (que, já agora conto, me tinha sido dada pela Air France, depois de me destruírem - o termo é mesmo esse - a minha mala favorita de viagem, porque tinha (finalmente) o tamanho ideal, numa viagem entre Lisboa e Estrasburgo), que faria o percurso Lisboa-Istambul, Istambul-Hong Kong, onde teria de a ir buscar, sendo que podia chegar no mesmo dia que eu.
Adivinhando uma aventura parecida com uma outra que, em 2004, tive no aeroporto de Schiphol, em Amsterdão - que, sem exagero, implicou um dia dentro do espaço do aeroporto, que equivale a uma pequena aldeia-, pedi que a mala chegasse uns dias depois, para eu calmamente ir buscar a dita cuja, estranhando que não houvesse serviço que permitisse a entrega em Macau (que não só é servido por jetfoil, mas, mais importante, por um aeroporto. Mas, não, aquela empresa, com a qual tinha de contratar, por razões que não vêem ao caso, não fazia desejada em entrega "ao domícilio".
Bom, domingo, depois de uma tentativa no sábado, abortada pelo facto de conseguir confirmar que a mala só chegava ao fim do dia (e, mais uma vez, a aventura anterior me avisava que o melhor era ir com tempo e enquanto havia luz do dia - apesar do serviço 24h), ponho-me ensonada a caminho. Jetfoil, 1h para HK, tempo para ler o jornal semanário comprado na véspera (eles há hábitos que se mantém onde quer que se esteja e um deles é o café e o jornal semanário ao sábado e domingo, para uma leitura demoradamente saboreada), dormir mais um bocadinho e... e ver a skyline irreconhecível da ex-colónia britânica. Mudou, de facto, significativamente, a começar por uma enorme ponte que há 10 anos, quando tinha pela última vez feito a travessia, não existia. Abro aqui um parêntesis, entre muitos (tique de escrita que não consigo abandonar), para explicar que sempre tive uma secreta paixão por Hong Kong, desde sempre adorei a chegada de Barco ao território e aquela linha demarcada no horizonte de prédios, a recortar o (pouco) verde que existia nas proximidades da estação de barco. Havia algo de mágico naquela chegada, talvez porque muito da minha paixão pela dança foi ali vivida, nas idas aos teatros ver as melhores companhias do mundo, ou porque tínhamos amigos que viviam em frente à praia onde o mar era ainda azul, ou porque significava que uma viagem estava prestes a começar. Fosse qual fosse a razão, sempre me detive na chegada do barco ao porto...
Ora, pois que agora tive dificuldade em reconhecer o recorte, os prédios que, antes, me pareciam óbvios (fotografia ao lado é datada da última visita em 2000), agora já não o são (procurei e procurei e nada... não reconhecia nada, sabendo que estava tudo no mesmo sítio, apenas total ou parcialmente tapado por novas construções), por outro lado, a referida ponte liga uma extensão significativa de água e, percebi eu depois, continua em terra por vários e vários km. Não é esta uma apreciação negativa ou positiva. Simplesmente, senti-me, ao contrário do que aconteceu com Macau, perdida antes de colocar o pé em terra... e como em post seguinte contarei, a minha aventura em busca da minha mala vinda num tapete mágico de Istambul ainda ia durar, mas numa situação divertida, mas também enternecedora, porque demonstra bem que quando as pessoas querem ajudar e ser prestáveis tudo se consegue, tudo se alcança, mesmo quando se partilha pouco mais do que meia dúzia de palavras de diferentes línguas... (corta, para cenas dos próximos capítulos)
terça-feira, 7 de setembro de 2010
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Efeitos do Jet Lag e a difusão de Portugal pelo mundo
Os efeitos do jet lag são, ou podem ser, múltiplos: não dormir, não conseguir comer nas devidas horas, cabeça baralhada e, no meu particular caso, incapacidade de fazer uma simples conta de divisão por dez (sim, arredondando a coisa, um euro são cerca de dez patacas. Case in point: na manhã seguinte à minha chegada decidi tratar da prioridade n.º 2 - já que a n.º 1 tinha embatido com um imbróglio burocrático (facilmente resolvido no dia seguinte): arranjar um telemóvel que funcionasse por aqui (isto porque não há qualquer necessidade de se proceder a constantes "doações" à Vodafone em roaming). Ora, tratada a questão de um cartão pré-pago para os primeiros dias, de modo a ser-me possível fazer um estudo das operadoras no mercado e seus preços, e decidida a ter "tento e medida" na tecnologia móvel a adquirir, sob pena de tomar decisões precipitadas (todas a favor da "i-Apple"), e, suponho, já bem ciente do efeito do jet lag em mim (além de não comer a horas, a minha cabeça claramente não funciona a 100%...), andei em busca do telemóvel mais barato possível, mas que desse resposta às minhas necessidades, vulgo: sms e chamadas. É, neste momento, que entro numa loja na rua das Mariazinhas (cujo o nome não é este, mas é assim que a conheço desde sempre, sem indagar quantas Marias são necessárias para dar nome a rua... mas isso são outros pensamentos, ligados a toda uma problemática que me assalta o espírito: como é que se dá o nome às ruas, qual o processo e que critérios se aplicam... mas isso dava todo um outro post). Regresso ao busílis da questão, pergunto quanto custa, respondem-me em MOP (=patacas)... "desculpe, mas pode dizer-me o preço em euros" (EFEITO JET LAG: o dito telemóvel custava 399 MOP, que é como quem diz, 39.9 Euros, simples divisão, eu tinha avisado). "Sim, claro", sacada a máquina de calcular para um preço mais preciso, lá me é dito com exactidão o custo de toda aquela tecnologia. O que se seguiu depois é que não esperava: "é italiana?", respondo, um pouco incrédula (até porque normalmente, a nacionalidade que me dão - vá-se lá entender porquê, é a francesa - eu tenho em crer que é porque ando muito de sabrinas), "não. Sou portuguesa". Ao que me é indagado com determinação simpática e confusa ao mesmo tempo, "então para que precisa de fazer a conversão em euros?". Não tive resposta e só mais tarde percebi que, aqui, portugueses são de cá e não se discute mais o assunto ... e por isso mesmo não há cá euros para ninguém... pergunto-me a mim própria se isto é um mau exemplo da difusão de Portugal no estrangeiro (sendo certo que é uma terra estrangeira especial,) ou um bom exemplo de integração... fica a dúvida...
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
bikini na rua, gola alta, gorro e luvas em casa
Podia começar a minha descrição do regresso ao Oriente e uma específica terra, 10 anos depois de umas férias, 23 anos depois da primeira vinda (na altura por 5 anos), por várias coisas. Mas começo por uma daquelas que nunca me tinha esquecido, mas cujo o impacto é tal que não há memória que nos recorde verdadeiramente da realidade: a diferença de temperatura que, no verão, se sente dentro e fora das casas/restaurantes/lojas/trabalho.
Estamos a falar de uma terra onde, em Agosto/Setembro fazem mais de 30º e a humidade ronda os 80-90%. Coisa leve, como se vê, fácil de respirar e de andar na rua, isto se se ignorar o impulso constante de se tomar duche. Isto é na rua. O contrário acontece "indoors", aí a temperatura ronda facilmente os 18.º (ou menos, dependendo de quem regula o AC), que é como quem diz, casaquinho sempre a mão - senhores que têm de usar fato (para não falar quando têm de usar farda), este é um post que traduz uma preocupação tradicionalmente feminina, já que S.Exas têm em regra de usar camisa de manga longa, casaco e gravata. Reconheço que nesses casos, o AC a menos de 18º é bem vindo, não tanto quando se é senhora é se está habituada à t-shirt ou camisa de manga curta, ou, qui ça, de alças, e a saias (sem collants, cumpre notar, sim, porque aqui, no pico do verão vêem-se senhoras de collants - eu pecebo bem porquê!). Naturalmente, e aqui uma nota muito politicamente correcta, senhoras que têm de usar fato (ou a farda) também ficam contentes com estas temperaturas dentro dos edifícios. Eu, contudo, congelo e depois entro em choque térmico, por isso, casaquinho ao ombro ou na mala, quem vou eu, tra lá lá...o collant é que não, por isso, cheira-me que o verão será, quando indoors, passado sem saias...
Estamos a falar de uma terra onde, em Agosto/Setembro fazem mais de 30º e a humidade ronda os 80-90%. Coisa leve, como se vê, fácil de respirar e de andar na rua, isto se se ignorar o impulso constante de se tomar duche. Isto é na rua. O contrário acontece "indoors", aí a temperatura ronda facilmente os 18.º (ou menos, dependendo de quem regula o AC), que é como quem diz, casaquinho sempre a mão - senhores que têm de usar fato (para não falar quando têm de usar farda), este é um post que traduz uma preocupação tradicionalmente feminina, já que S.Exas têm em regra de usar camisa de manga longa, casaco e gravata. Reconheço que nesses casos, o AC a menos de 18º é bem vindo, não tanto quando se é senhora é se está habituada à t-shirt ou camisa de manga curta, ou, qui ça, de alças, e a saias (sem collants, cumpre notar, sim, porque aqui, no pico do verão vêem-se senhoras de collants - eu pecebo bem porquê!). Naturalmente, e aqui uma nota muito politicamente correcta, senhoras que têm de usar fato (ou a farda) também ficam contentes com estas temperaturas dentro dos edifícios. Eu, contudo, congelo e depois entro em choque térmico, por isso, casaquinho ao ombro ou na mala, quem vou eu, tra lá lá...o collant é que não, por isso, cheira-me que o verão será, quando indoors, passado sem saias...
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
véspera
Estou com a sensação de que me estou a esquecer de alguma coisa, daquelas importantes, mas já verifiquei, passaporte, bilhete, declaração para entrar no território... uhm... acho que é aquilo a que chama "cold feet". Ontem, deu-me para ligeiramente choramingar, mas rapidamente passou. Hoje, estou demasiado cansada das últimas corridas: banco, farmácia, oculista, últimos jantares, almoços e cafés - sim, o dia hoje foi também preenchido, dentro do razoável. Olho para a mala, a mochila e a carteira e penso: como é que eu vou fazer passar este peso todo pela alfândega e, mais importante, como é que eu a vou carregar. Esta é a parte logística, aquela que me entretém quando começo a ficar tristonha e saudosa - com demasiada antecipação - dos amigos, da família, do mar e da luz de Lisboa. Penso também na aventura que me espera, no mundo por descobrir e nos amigos e na família, fabulosos e fabulosa, que tenho e que me têm acompanhado em todos os momentos, mesmo quando implicavam a distância. Penso também nos amigos que vou reencontrar e na oportunidade que estou a agarrar. E por isso a minha saudade conjuga-se com expectativa e animação. É aquela sensação agri-doce. Mas a vida é mesmo assim, não é? Mas não posso deixar de começar esta aventura sem agradecer aos meus amigos, os de sempre e os mais recentes, os da escola e os do trabalho, pelo apoio, a generosidade e o afecto que me têm demonstrado, o que faz com que parta aconchegada com o seu amor e respeito.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Esclarecimento
Depois de algumas ameaças de só jantar e almoçar saladas por causa do post anterior, que fique registado que o efeito balança é mais do que bem vindo... eu é que já me tinha esquecido que o efeito de se ser imigrante é normalmente esse... sem contar que adoro o facto de andar com energia suficiente que me permite estar a corresponder aos convites, coisa que normalmente não é possível por causa das """" (ver post anterior;-)).
Pronto, tudo explicado... espero...
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Não há fome que não dê fartura
Quem me conhece sabe que eu sou um bocadinho bichinho do mato e isso de sair e jantaradas, mesmo que gostando imenso, tem de ter "peso, tento e medida", sobretudo quando combinados com almoços e cafezinhos. Ora, eu já me tinha esquecido do que é ser emigrante, mas rapidamente me lembraram, quanto mais não seja pela agenda repleta de marcações e os 3kg a mais que a balança já acusa (note-se este post é justificado precisamente por uma passagem nesse instrumento que me tem auxiliado com feitura das malas).
terça-feira, 24 de agosto de 2010
malas aviadas
Perplexa olha para os 6 sacos e duas malas. Dois anos, pensa, como se justificasse o acumular de coisas e a incapacidade de escolher que fundamentava aquele cenário. Ah! E não esquecer a mochila para levar no avião. Dois anos, repete. Mas não convencida. A viagem é, ainda, irreal. E as malas e os sacos organizados chocavam, pelo exagero, mas não tornavam as coisas mais reais. Simplesmente, pensava, chega de tanto materialismo, chega de "coisas", aproveita esta oportunidade, faz uma limpeza aos armários e basta de consumo. Mas continuava pouco convencida. Nada convencida. Talvez seja o cansaço de fazer as malas, arrumar papeis e, sobretudo, do acto de se despedir das pessoas que faziam com que tudo fosse irreal e pouco convincente. Como se amanhã retomasse o trabalho de sempre, com as pessoas que já conhece e as rotinas, porque são rotinas, que dão corpo ao seu quotidiano.
Dois anos, 6 sacos, duas malas, um mochila... e o portátil, já se esquecia. Chega de consumo, repete. É já para a semana e, à excepção do excesso das coisas que vão para o outro lado do mundo, ainda não é real.
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